Estão vendendo verdades no centro da cidade
E os doutores se reúnem para reclamar
Dizem que não querem perder tempo
E que tudo deve parar
E o cantor de Blues da casa noturna
Vê os jovens rirem de tempos passados
E logo depois saírem para a rua
Provando que estão errados
E um gato qualquer num telhado qualquer
Não leva nada muito a sério
Dentre aqueles com a sua idade
O pobre gato se sente um velho
E os artistas de rua não vão bem
Sua arte não é mais atual
E na noite agitada da cidade
Ninguém para para vê-los dançar
E o escritor em seu apartamento
Vê as idéias voarem pela janela
A idéia lhe parece atraente
Mas ele volta a escrever
E os bêbados festejam a vitória
Mas a vitória nem mesmo é deles
Também, se não comemorassem assim
Não teriam muito pra celebrar
E o indigente não vai dormir
Tem o dia inteiro pra descansar
Mesmo não conhecendo ninguém
De noite ele se diverte
E o segurança da boate
Parece estar de bom humor
Seu trabalho não é dos melhores
Mas sua vida não deixa de ser
E a festa das pessoas importantes
No fim não nos importa tanto
Mas sim a garçonete que ve a tristeza
Por trás dos sorrisos dos ricos
E a garota ruiva está sozinha de novo
Mas isso não é bem um problema
Quase todos os outros são lixo
E até melhor assim
E o cartunista desempregado
Não tem muito o que fazer
Seus personagens o aconselham
"É melhor viver"
E o homem-placa então anuncia:
"Fujam! O sol vai nascer!"
E acrescenta, emocionado:
"Não deixe a vida morrer"
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Loucura
Acordado, acordado, estou acordado. Por quinze ou trezentas vezes tentei inutilmente me convencer de que tudo era um pesadelo no qual eu era outro ser, ser este que tentava pensar como eu mas falhava miseravelmente. Perdia-se no meio do caminho quando não entendia por que pensava como eu e se confundia. A princípio ria deste ser, ria de suas tentativas de me imitar , mas no fundo com um medo terrível deste ser se mostrar ser nada mais nada menos que eu, na mais básica pureza de minha existência. Perdido, como um arquiteto que se perde em um labirinto por si próprio projetado. Despejei meu medo no ar, e tal medo foi contagioso. Me prenderam "para meu próprio bem". Não consigo me explicar, como se em minha boca houvesse um aparelho que misturasse as minhas explicações. Não me movo, mal respiro. Meu próprio cárcere vitalício está aprisionado, e em dupla prisão nada posso fazer a não ser falar comigo mesmo. Tic-Tac... Tic-Tac... Ouço e observo as horas passarem e, uma por uma, rirem da minha cara de desespero diante da falta de controle sobre mim mesmo. Em momentos de desespero me jogo contra as paredes acolchoadas, e de relance vejo a expressão monótona dos que me vigiam através de um quadrado. Por que me prendem? Não sou como os outros! NÃO SOU!!!! Não tenho alucinações, não finjo ser quem não sou, a culpa é apenas de meu corpo que se amotinou contra mim e não mais me obedece. Não posso fugir. Ou melhor... Talvez eu possa. Me deito no chão e ordeno ao meu corpo: "Pare! Faça silêncio, eu quero dormir!". E ele obedece. Me sinto leve, me sinto tranqüilo. Agora nada pode me impedir, nem meu duplo cárcere e nem aqueles que se julgam no direito de me aprisionar. Agora tudo acaba, e por mais alguns segundos ouço: "Tic-Tac... Tic-Tac..." e então, silêncio.
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